terça-feira, 10 de março de 2009

Um sintoma do mercado

De sexta-feira passada, após o expediente, até a manhã desta segunda, o universo deste blogueiro se resumiu a cerveja, cachacinha artesanal, torresmo, pão de queijo, "uai", "sô", "véi", "trem", pelo menos uns 7ºC a menos que a temperatura a que eu estava acostumado e, ao mesmo tempo, muito calor humano de minha família mineira. Uma fugida estratégica do ritmo alucinante de trabalho e do calor senegalesco do Rio de Janeiro.

De volta a minha terra querida, após um dia puxado, me atraquei, agora de noite, com o noticiário do final de semana, para ver o que havia perdido, e me deparei, no site do jornal O Dia, com a notícia de que o prefeito Eduardo Paes quer
transformar a Zona Norte do Rio de Janeiro num pólo de telemarketing.

A idéia, um projeto de lei que será encaminhado à Câmara de Vereadores, é oferecer isenção de IPTU, redução de ISS e outros incentivos para que empresas de telemarketing instalem suas sedes no entorno da Avenida Brasil, do Jacarezinho e do Mercado São Sebastião. Elas criariam, em dois anos, segundo as previsões do prefeito, entre 100 mil e 120 mil empregos na região.

Acho que aqui cabe uma localização, pois este blog tem leitores de fora da cidade e do Estado. A área que Eduardo Paes pretende revitalizar está entre as mais pobres e violentas do Rio de Janeiro.

A idéia pode ser boa. Em meio a uma crise em que milhares de pessoas perdem seus empregos diariamente ao redor do mundo - e aqui também, no país da marolinha -, qualquer atitude para criar novos postos de trabalho é bem vinda. Mas, no ponto de vista deste blogueiro irritado, a notícia traz um retrato do que é o telemarketing no Brasil.

O prefeito não é burro. Sabe que essa indústria é uma mina de ouro e que tem muitas empresas, por aí, faturando de uma forma que o grande público sequer toma conhecimento. E por que faturam? Porque pagam salários baixíssimos e praticamente não dão outros benefícios. Enfim, porque lidam com mão-de-obra barata. Muito barata. É uma verdadeira tábua de salvação para muito jovem em busca do primeiro emprego ou de gente com pouca qualificação e há tempos na fila dos desempregados.

Dentro dessa lei, o Eduardo Paes poderia obrigar as empresas a investirem no treinamento, na qualificação do pessoal contratado.

O depoimento de Daniele Feliciano T. Martins, moradora de Madureira, na matéria do jornal O Dia é sintomático. Uma análise honestíssima do mercado, que este blogueiro, certamente, não faria melhor:

"O salário que oferecem é baixo e tem muita gente desempregada, o que aumenta a concorrência. Quanto mais longe você mora, maior sua desvantagem. O empregador não quer pagar duas passagens. Há cinco meses procuro emprego todos os finais de semana no jornal e nunca vi uma vaga de telemarketing na Zona Norte. Todas são na Zona Sul ou Centro. Se tivessem empresas por aqui seria o ideal porque teríamos mais chances".

A nova regulamentação dos call centers está em vigor desde 1º de dezembro do ano passado e, no entanto, pouco notamos a diferença. Continuamos a nos irritar com a péssima qualidade dos serviços prestados. Alguém tem dúvida do porquê?

3 comentários:

Unknown disse...

É uma equação difícil de solucionar mesmo. Mas, bairrismos deixados de lado, confesso que vou preferir ser atendido por alguém da Zona Norte a ter minhas solicitações recebidas por um cabra lá do interior da Bahia, pra quem eu praticamente tenho que soletrar endereços conhecidos aqui do Rio - logicamente, desconhecidos para ele.
Triste fim o nosso, meu caro! Se correr o bicho pega...e se ficar...
Abs!

Anônimo disse...

Numa boa, cara, acho que não faz muita diferença ser atendido por alguém que está aqui do lado ou por alguém de fora.
E pra te falar a verdade, prefiro ser atendido por alguém com sotaque mineiro do que alguém com sotaque carioca. Vai me irritar menos. Não gosto do nosso sotaque.
Abração!

Anônimo disse...

Oi rapaz!
Pior é não conseguir ser atendido...