Todo mundo conhece a receita: um punhado de respostas padronizadas e evasivas; cinco xícaras de gerundismo; duas colheres de sopa de transferência de responsabilidades para o "sistema" e má vontade a gosto. São esses os ingredientes usados na gororoba de irritação que a grande maioria dos call centers costumam nos oferecer.Mas ser atendente de telemarketing, ao meu ver, é como ser garçon num restaurante ruim. O cara faz o trabalho do jeito que mandam, mas o produto que entregam é uma porcaria. No caso da comida indigesta, a culpa é do cozinheiro. E no caso do operador, a culpa é de seus superiores.
Muitas vezes, ao ligar para um call center, nos sentimos verdadeiros idiotas. Somos obrigados a falar com atendentes virtuais, gastar os dedos digitando no teclado do telefone e ouvir musiquinhas irritantes até o ápice da ligação: o contato com o operador. É nesse ponto que, na verdade, tudo faz diferença para o bem ou para o mal.
Nem sempre a comida de um estabelecimento precisa estar num nível três estrelas do Guia Michelin. Algumas vezes, o bom atendimento de um garçon faz a diferença num restaurante ou bar em que você sente a falta daquele toque a mais no tempero, ou de um grau a menos no chope, para ficar completamente satisfeito. Isso exige personalidade e iniciativa dos caras que carregam as bandejas e um mínimo de liberdade por parte de seus chefes.
No caso dos call centers, os operadores podem até ter a personalidade, o dom da iniciativa, mas são completamente podados pelas empresas. E, o que é pior, ganham mal e sofrem pressões absurdas, dentro de condições de trabalho que beiram o escravagismo.
Do início da manhã desta quinta-feira até esta tarde, os funcionários da empresa Atento organizaram uma paralisação, com o apoio do Sindicato dos Trabalhadores em Comunicação da Bahia (Sinttel). Eles reivindicam melhoria salarial, melhores condições de trabalho e assistência médica.
A empresa de call center pertence ao Grupo Telefônica - que também é dono da Vivo - e está entre as maiores do país no setor. Os funcionários da Atento, segundo o Sinttel da Bahia, recebem salários de R$ 408, um valor R$ 57 menor que o salário mínimo (R$ 465), reajustado pelo governo federal e que entrou em vigor no dia 1º de fevereiro deste ano.
Em busca de um mínimo de imparcialidade na questão, o "Senhor, estarei te irritando..." entrou em contato, por e-mail, com o setor de comunicação da Atento, para ouvir o lado de lá, mas ainda não recebeu uma posição oficial da empresa. Tão logo ela chegue, este humilde espaço será usado.
De qualquer forma, a mobilização na Bahia é uma prova de que o operador de telemarketing, assim como qualquer garçom, ou frentista, ou jornalista, é um trabalhador, que merece seus direitos.
Sim, eles reivindicam. E pensam. Infelizmente, não o fazem quando nos atendem, pois estão condicionados. Seria tão bom se, na hora do atendimento, eles demonstrassem um pouco mais de atitude - como estão tendo lá na Bahia, ao lutarem por seus direitos - e tentassem, efetivamente, resolver nossos problemas...
3 comentários:
Pois é, quem sabe com essa mobilização ele consigam melhorar não somente as condições de trabalho dele como tb de atendimento!
Bjos!
Raphael, o negócio é o seguinte. Tem alguém muito burro por trás disso tudo. Enquanto algumas empresas demitem funcionários para usar algum método automatizado para substituí-los, as empresas de call centers, em vez de fornecerem informações nos sites para os clientes, contratam centenas de funcionários para... "estarem nos irritando". Pra ouvir que alguma coisa se concluirá em, no máximo, 24h, ou que alguma coisa não consta no sistema, ou que isso ou aquilo não é possível, poderia ler numa página do site. Seria mais rápido e um pouco menos irritante. Abraço.
O negócio, Aloísio, é que além de as empresas precisarem do telemarketing - no caso do ativo, para a venda seus produtos; no caso do receptivo, para servir como blindagem das reclamações dos clientes -, já se criou uma indústria que movimenta milhões.
Não vão resumir o atendimento a uma página num site. Até porque, exclusão digital é uma realidade. Não é todo mundo que tem acesso à internet, mas todo mundo tem o direito de ligar para um atendimento em busca de seus direitos.
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