terça-feira, 8 de julho de 2008

Crônica "Senhor, estarei te indignando..."

O telemarketing só encontrou seu verdadeiro propósito quando chegou no Brasil. Num país onde o povo não tem o costume de brigar por seus direitos, esse tipo de serviço só poderia cair como uma luva. Usados como blindagem pelas empresas, para vencer pelo cansaço os seus clientes - que, normalmente, costumam ter razão em suas reclamações -, os call centers irritam e deixam o consumidor com aquela sensação de impotência.

E o que é um contribuinte? Nada mais que um consumidor dos serviços públicos sem, sequer, o recurso dos call centers. Nós, que pagamos nossos impostos, temos o direito de exigir saúde, educação, lazer, segurança.

Um desses itens, a segurança pública, é algo que, caso tivesse um call center específico, seria alvo de muitas reclamações, principalmente aqui no Rio de Janeiro.

Imaginem a situação hipotética:

Toca o telefone no "Call Center da Polícia". De plantão, no domingo passado, Valdemar Fernando atende e ouve o relato de uma tragédia:

- Polícia, boa noite. Meu nome é Valdemar Fernando, com quem eu falo?
- Meu nome é Paulo. Sou pai de um menino inocente, o João, de apenas 3 anos de idade, que foi metralhado e morto covardemente por um de seus policiais, enquanto estava no carro com a mãe, voltando para casa.
- Senhor, poderia estar me confirmando alguns dados?
- Você me ouviu bem? Seus policiais assassinaram meu filho. Meu outro filho, de nove meses, estava dentro daquele carro e, Graças a Deus, escapou ileso. Minha esposa se colocou na frente da linha de tiro e ficou cheia de estilhaços! Eu não pago os meus impostos para virem executar a minha família. Você entendeu o que eu acabei de dizer? Seus policiais acharam que um carro com uma mãe e duas crianças estivesse cheio de bandidos!
- Senhor, seu cadastro não foi encontrado em nossa base de dados. Poderia estar me confirmando seu telefone?
- Não quero saber de cadastro! Estou ligando porque, até agora, não veio ninguém me procurar!
- Senhor, estaremos registrando sua reclamação. Poderia estar anotando o número do protocolo.

Sem saber o que fazer com um número de protocolo, Paulo desliga o telefone na cara do atendente.

Algo parecido já havia acontecido com Valdemar Fernando no ano passado, mais precisamente em fevereiro. Uma outra tragédia, que envolvia um outro menino, também chamado João, foi motivo de ligação para o "Call Center da Polícia":

- Polícia, boa noite. Meu nome é Valdemar Fernando. Com quem eu falo?
- Meu nome é Rosa. Eu fui assaltada, roubaram meu carro e saíram arrastando meu filho João, de apenas seis anos, que ficou preso no cinto de segurança do banco de trás!
- Senhora, poderia estar me confirmando alguns dados?
- Como assim confirmar dados? Meu filho está morto! Os bandidos levaram meu carro e ele foi arrastado por sete quilômetros!
- Então, a senhora está me dizendo que a criança foi morta por bandidos. Neste caso, terei que estar lhe transferindo para outro setor. A senhora sabe de qual facção eram os bandidos?
- Como é que eu vou saber????
- Senhora, se não soubermos qual foi a facção que cometeu o crime, não teremos como estar lhe ajudando. Vou estar registrando sua reclamação.

E Rosa desliga o telefone na cara do atendente, certa da impunidade e com a sensação de impotência imposta por qualquer call center a seus consumidores.

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Nota do blogueiro: Por se tratar de um blog temático, busquei, com este post, manter o assunto telemarketing e, ao mesmo tempo, através de uma pequena crônica de realidade cruel, expressar toda a minha indignação com episódios de violência chocantes e, infelizmente, recorrentes que acontecem em nossa Cidade Maravilhosa.

Foi uma licença no clima de descontração do blog que eu não gostaria de ter feito, mas a necessidade de desabafar foi mais forte. E tenho certeza de que a sociedade brasileira, neste momento, se sente da mesma forma: chocada, desprotegida, violentada.

Que as mortes desses meninos - ambos, numa mórbida semelhança, de primeiro nome João - não se tornem meras estatísticas. Números nos quais se debruçam, inclusive, nossas autoridades, assim como fazem os mestres do telemarketing, com o simples intuito de esconder suas falhas.

Deixo, aqui, neste humilde espaço, meu eterno pesar não apenas às duas famílias dos meninos de primeiro nome João, mas a todas as famílias que foram destruídas pela falta de segurança pública neste país.

5 comentários:

O mundo de Sabrina disse...

Rapha, brilhante texto! De fato, seja para os serviços de Call Center, seja para o poder público, somos todos mais um número. A cada dia, só vemos aumentar o número de "joães" por aí...

Naila Oliveira disse...

Essa polícia é uma vergonha, assim como esse Estado de merda. Quantas desculpas hipócritas mais eles vão continuar pedindo, e as pessoas morrendo, e as famílias se destruindo. Infelizmente, aqui neste caso o gerúndio tem que ser utilizado.

Anônimo disse...

Raphael, acho muito importante essa indignação. E a minha passa por: onde está o nome dos dois policiais? Sem esse detalhe, como iremos fiscalizar que eles realmente serão punidos e expulsos da corporação, como prometeu o governador do Rio?

Anônimo disse...

Caros colegas, o pior é que toda essa indignação não adianta muita coisa,pois "eles" vão continuar agindo dessa forma. Moro na Tijuca e no dia da morte do João, escutamos os tiros aqui de casa, mas como ouvimos rajadas constantemente, nem ligamos. Apenas liguei para meu marido para saber se estava tudo bem com ele, pois trabalha de noite. E essa preocupação é diária!!!
Ontem, ele estava jogando AGE of EMPIRE on line e um dos jogadores era de Iowa (USA) e ele perguntou se aqui no Rio era comum acontecer esse tipo de crime. Ficamos meio envergonhados e nem conseguimos responder!!! O medo é tanto que nem consigo sair de carro de noite por aqui...

Anônimo disse...

Caros colegas, o pior é que toda essa indignação não adianta muita coisa,pois "eles" vão continuar agindo dessa forma. Moro na Tijuca e no dia da morte do João, escutamos os tiros aqui de casa, mas como ouvimos rajadas constantemente, nem ligamos. Apenas liguei para meu marido para saber se estava tudo bem com ele, pois trabalha de noite. E essa preocupação é diária!!!
Ontem, ele estava jogando AGE of EMPIRE on line e um dos jogadores era de Iowa (USA) e ele perguntou se aqui no Rio era comum acontecer esse tipo de crime. Ficamos meio envergonhados e nem conseguimos responder!!! O medo é tanto que nem consigo sair de carro de noite por aqui...