quinta-feira, 2 de abril de 2009

Contestar direitos do consumidor não é defender o operador

Vamos dar um tempinho nas histórias para falar de um assunto muito sério, que, muito provavelmente, vai tocar em algumas feridas. Desde os primeiros posts deste blog, feitos em junho do ano passado, procuro sempre escrever por aqui que tenho o mais profundo respeito por qualquer tipo de profissional. E nesse grupo se incluem os operadores de telemarketing. São pessoas honestas, batalhadoras, muitas vezes exploradas, que ocupam uma boa fatia do mercado formal de trabalho e não podem ser ignoradas.

O setor de telemarketing emprega, hoje, quase um milhão de pessoas e conta, por aí, com alguns defensores. Tem a Associação Brasileira de Telesserviços; a Associação Brasileira das Relações Empresa-cliente; a Associação Brasileira de Marketing Direto e mais algumas entidades, além de veículos especializados na área, alguns deles listados aqui ao lado direito, na seção "Links do setor".

Mas este blogueiro gostaria de deixar uma pergunta no ar: essas entidades existem para beneficiar os pobres operadores ou defender os interesses das bilionárias empresas de call centers?

Pois essas entidades são as primeiras a chiar sempre que alguma nova iniciativa em defesa do consumidor entra em vigor. O motivo? Defender o consumidor significa mexer numa galinha dos ovos de diamante. E quem é o responsável por colher os ovos? O operadores de telemarketing, justamente os elos mais fracos nessa relação conflituosa entre empresas e consumidores.

A primeira desculpa das entidades nas campanhas contra medidas em defesa do consumidor é dizer que o setor pode sofrer com demissões. Ou seja, é a corda estourando em cima dos mais fracos. Foi assim quando se começou a falar de nova regulamentação para os call centers (o decreto nº 6.523), em julho passado, e está sendo assim agora, diante do cadastro para bloqueio de ligações em São Paulo, o maior mercado consumidor do país.

Como disse por aqui, recentemente,
não é meu papel levantar questões trabalhistas. Mas acho válido apontar a grande diferença de discurso dessas entidades se comparadas, por exemplo, ao que pregam os sindicatos do setor, que lutam pela melhoria nas condições de trabalho dos operadores. Me parece ficar claro que tipos de interesses cada um defende.

Contestar os direitos do consumidor, como fazem essas entidades, não é defender os interesses dos operadores. Muito pelo contrário.

Só sei que os interesses deste blogueiro são os mesmos de qualquer consumidor. E, por isso, vou falar uma coisa, aqui, com muita sinceridade: concordo 100% com o decreto nº 6.523 e sonho com o dia em que os legisladores do Rio de Janeiro vão seguir o exemplo de São Paulo e instituir, por aqui, o bloqueio de ligações. Se isso vai gerar desemprego no setor, não é problema meu. Lamento, mas realmente não é problema meu, por mais duro que possa ser essa afirmação. Resta apenas que os sindicatos consigam uma voz mais ativa nessas questões.

Quero ter o direito, assim como os paulistas, de não ter minha privacidade invadida, com ligações em meu telefone de casa, num sábado de manhã, por exemplo, com alguém tentando me vender alguma coisa que eu não quero.

A ação de uma dessas entidades contra o bloqueio de ligações em São Paulo foi rechaçada pela Justiça e a contagem por lá só faz aumentar. Até a tarde de ontem, o Procon de lá já havia recebido inscrições de mais de 135 mil números de cerca de 73 mil consumidores.

Sintomático, não?

0 comentários: