sábado, 21 de junho de 2008

Atração fatal

Não posso imaginar a pressão que sofre um operador de telemarketing ativo. Ser obrigado a ligar para o sacrossanto lar de uma pessoa, para oferecer um produto ou serviço e, ainda por cima, ter que cumprir metas, pode levar um profissional dessa área a cometer atos extremos. Recebi, ontem, uma história inacreditável de uma colega de trabalho, que reproduzo aqui, agora.

Aline é jornalista, assessora de imprensa, há anos trabalha no ramo de editoras, divulgando livros. Gosta do que faz e, também por obrigação do ofício, é uma pessoa muito culta.

Para qualquer jornalista, principalmente um assessor de imprensa, ler jornal é algo fundamental. Obrigatório. Já ter uma assinatura em casa, certamente, não.

Um dia, Aline recebeu uma ligação do telemarketing de um tradicional jornal carioca, que, apesar de ser feito no Rio de Janeiro, é do Brasil. O atendente oferecia uma assinatura. E ela disse que iria pensar.


Erro de principiante... Iniciava-se, ali, uma perseguição implacável, que acabaria envolvendo toda a família de Aline.

No mesmo dia, aconteceu a segunda ligação de Alvimar Fernando - Aline me disse que nunca mais esqueceu o nome do cidadão, mas, para manter o padrão criado no blog, usarei um nome fictício.

Foi oferecida uma série de pacotes que a deixaram tonta. Para acabar com aquilo de uma vez, Aline informou que não desejava mais assinatura nenhuma. Alvimar Fernando não se deu por vencido e, logo no dia seguinte, ligou pela terceira vez:

- A senhora pode estar recebendo, junto com o jornal, um guarda-sol ou um relógio maravilhoso!

Educadamente, Aline respondeu:

- Não estou interessada. Por favor, não me ligue mais.

Uma semana se passou, mas Alvinar Fernando não havia desistido de conseguir mais um cliente para seu jornal. Tal e qual a Blitzkrieg de Adolf Hitler devastando a Polônia, o atendente partiu para um ataque inesperado e bombardeou Aline com perguntas inimagináveis!

- Você não gosta do jornal? Você não tem tempo de ler jornal? Você gosta de viajar? Você gosta de política? Você se importa com o que acontece na sua cidade? Você já parou para prestar atenção na qualidade do jornal? Você não quer assinar porque não tem dinheiro? Você está desempregada? (Nota do blogueiro: no mínimo constrangedor!). Você prefere um jornal mais "global"?

Antes de ficar louca, Aline, ainda mantendo a paciência, falou que precisava sair para trabalhar. E Alvimar Fernando soltou nova pérola:

- Mas são sete horas da noite - insinuando que ninguém saía para trabalhar naquele horário.

Perplexa, Aline respirou fundo e desligou o telefone na cara do atendente.

Na quinta ligação, na mesma semana, o pai de Aline atendeu e pediu que Alvimar Fernando parasse de ligar. E, para surpresa de todos em casa, o operador começou a apresentar sinais mais sérios de psicopatia:

- Só aceito essa resposta vindo da Aline.

Com razão, Aline começou a ficar com medo.

Na semana seguinte, o aparelho de telefone da casa foi trocado por um modelo mais moderno, que tem o serviço de chamada em espera - com aquela musiquinha chata, típica dos atendimentos de telemarketing. Na mesma hora em que o aparelho chegou, Aline pensou: "Vou me vingar!".

As ligações continuaram por mais um mês. Toda a família já conhecia Alvimar Fernando e fugia dele, como o Diabo foge da cruz. Até mesmo a avó de Aline, uma senhora de 92 anos, atendia o telefone e falava para ela não ligar mais. Nada adiantava! Foi adotada, então, a prática da chamada em espera - a musiquinha -, que acabou virando uma diversão familiar. Mas Alvimar Fernando não desistia. Pelo contrário, só retornava ainda com mais vontade.

Até que, enfim, Aline fez Alvimar Fernando desistir de vez ao fazer uma ameaça.

Numa sexta-feira à noite, cansada, após um dia puxado no trabalho, o telefone tocou. Quando Aline falou "alô", já ouviu aquela voz inconfundível e partiu para o ataque.

- Olha, agora acabou! Eu não aguento mais! Não quero ler o jornal, não uso relógio e não gosto de guarda-sol. Se você continuar com essa perseguição, eu vou entrar na Justiça!

E Alvimar Fernando respondeu:

- Muito obrigada senhora, o jornal agradece e tenha uma boa noite.

Aline, no fim das contas, ficou com pena do atendente, a quem considerava quase um robô, mas depois, parando para pensar, ficou com pena, mesmo, das próximas pessoas que ele perturbaria dali em diante.

7 comentários:

Anônimo disse...

Raphael,

Seu blog é muito legal. Sei que vc. vai receber inúmeras estórias sobre nossos perrengues com os atendentes de telemarketing que sempre vão estar anotando nossos pedidos e vão estar providenciando soluções dos problemas e nós vamos estar esperando ser atendidos.
Só que não aguentamos mais este gerundismo ridículo que tornou-se modismo em todos os lugares.
Parabéns novamente e sucesso.

bia disse...

sem falar que quando pedem para esperar, na volta falarm "obrigado por esperar, desculpa pela demora" o que ocorre , no mínimo, umas 238 x a cada ligação

Anônimo disse...

Não deve ser nada fácil trabalhar em telemarketing ativo,é justamente o que oferece mais vagas de emprego, para poder pertubar o outros.O problema que certos operadores de telemaketing, não percebem quando exageram na abordagem. "Numa ocasião, um operador de telemarketing, de uma instituição bancária, ligou-me para oferecer título de capitalização, que na verdade é uma grande tapeação. Ele me contou as vantagens do título de capitalização, e eu disse gentilmente que não estava interessada. Ele novamente contou-me da vantagens do título de capitalização, e eu mais uma vez, disse que não estava interessada. Para meu espanto, ele contou as vantagens do título de capitalização pela terceira vez, como se fosse um robô descontrolado, e desta vez, fui obrigada a desligar o telefone no ouvido dele."

Anônimo disse...

Raphael, penso que seu projeto captou muito bem um sentimento do consumidor brasileiro neste momento. Sucesso.

Marcelo

Naila Oliveira disse...

Boa, Rapha
Vou adorar colaborar.
Bjs

Anônimo disse...

Rafael parabens tava assistindo o sem Censura e me diverti muito amei esse blogKKKKKKKKKKKkkkkkkk hahahahaha hehehehe Desculpe Rafael e Aline mas essa "estória" foi muito engraçada kkkkkkkkkkkkk...
Bjos. e SUCESSO!!

Anônimo disse...

Olá, Raphael,
Vi uma nótícia sobre seu blog no jornal, achei muito interessante. Eu sei muito bem como é a vida de operador de telemarketing, afinal, sou uma, mas graças a Deus trabalho numa empresa que presa o funcionário e não o trata como máquina, o que me dá liberdade de em pleno horário de trabalho estar acessando esse blog por exemplo, ah...e trabalho com telemarketing ativo na área de publicidade, não vendo diretamente, mas já tive a oportunidade de ajudar muitas pessoas a alavancarem suas empresas com anúncios no jornal onde trabalho. É muito triste saber que existem profissionais que não são valorizados, e na maioria das vezes estão alí apenas para fazer o dia do cliente mais chato e fingir que estão soluciando os seus problemas, eu por exemplo, acabei de tentar negociar uma dívida e a única coisa que ouço é "Infelizmente não será possível fazer um parcelamento"...serei obrigada a esperar...e com certeza os juros virão junto...

Abs e espero contribuir com opiniões sobre meu trabalho.